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Literatura
<- Voltar à secção: - Antologia de poetas
Ruy Duarte de CARVALHO
Ruy Duarte de Carvalho, nasceu em Santarém em 1941. Passou a infância e a adolescência no sul de Angola, tendo acompanhado o pai, nas suas itenerâncias pelo deserto do Namibe.

Regente agrícola, foi criador de ovelhas caracul, mais tarde estudou cinema em Londres e antropologia em Paris, doutorando-se com uma tese sobre os pescadores da Ilha de Luanda.
Ruy de Carvalho
É professor na Universidade de Luanda.
Publicou varios trabalhos poeticos como «Chão de Oferta» (1972, Luanda, Culturang), «A Decisão da Idade» (1976, Lisboa, Sá da Costa), «Exercícios de Crueldade» (1978, Lisboa, Publicações Culturais Engrenagem), «Sinais Misteriosos ... Já se vê ..,» (1979, Lisboa, Ed. 70), «Ondula, Savana Branca» (1982, Lisboa, Sá da Costa), «Lavra Reiterada» (2000, Luanda, Editorial Nzila) entres outros.

"A fome"

  (origem Kwanyama)

Quem pouco fala não diz nem bem nem mal
e o morto, no caixão
não tem voz ativa.
Tu, quando falas
matas os da cobra
e os da hiena
vão para a sepultura.

Para que nós, na desgraça, não roubemos
para que nós, viajantes, não roubemos ninguém
Senhor, Deus de Nangobe
dá-nos a chuva.
Avô dos miseráveis
Mãe dos pobres
Tio dos famintos
Mãe, Avô e Tio dos que caem nos caminhos da fome
faz sair a chuva
faz crescer os mantimentos
inunda-nos com a tua água.
Ajuda os pobres, Deus de Nangobe.
Cai chuva
e traz-nos a bênção
do canto das rãs.
Aonde dorme, a chuva?
Na figueira da Haudila?
Nos grandes paus de Solela?
Eu queria o vento.
Eu queria a tempestade
e a faísca que levanta
pela raiz
a pequena palmeira.

Rei Mahondi de Mwaeta
soberano Kahondi do Muvale:
Senhor!
O calor já está a prolongar-se.
A massambala seca
a semente definha
e a rama murcha.
A fome aproxima-se, Senhor!
A seca já chegou às nossas portas
e até já se instalou em nossas casas.

Levou alguns para a lagoa
outros foram para o Lubango.
Não há para onde fugir
quando se é presa da fome.
A fome é filha das feras
está no teu estômago e diz:
vai roubar, vai roubar.
Os seus cornos são agudos e direitos
mais finos do que azagaias.
Não deixam marca
nem ferida nem chaga.
Oh meu boi magro
quando a chuva morre
não há casa que não faça o inventário.
Luto pesado!

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