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OS MEUS AVÓS (Consideração pessoal) Parte I

Francisco de Nóbrega Júnior e Maria Carolina Ferreira de Nóbrega, assim se chamavam os meus avós, faziam parte daquela selecção que a Natureza se encarregou de manter vivos, apesar de vicissitudes de toda a ordem!...
Girafas
Nasceram, sobreviveram e foram criados na África do Século passado. São descendentes daqueles que, não se contentando com o miserável estado de estagnação provinciana, imbuídos da força e da fé que residem na alma das gentes que deram mundos novos ao mundo, atravessando mares e fronteiras, deixaram para trás a morte lenta da mediocridade. Ambos naturais da Humpata, vila planáltica sobre a maravilhosa paisagem da Serra da Chela, fundada por portugueses e coabitada por famílias holandesas refugiadas das guerras Anglo-Boeres. Esta vila foi Sede de Concelho, antes da existência da cidade do Lubango e, em melhor oportunidade, merecerá destaque nestes escritos.

Não me foi possível detectar a data de fixação dos primeiros portugueses no planalto da Huíla, neste último paraíso vivo da superfície da Terra, mas o facto da cidade de Luanda ter sido fundada em 1575 por Paulo Dias de Novais e a de Benguela em 1603 por Manuel Cerveira Pereira permite visionar uma fixação Lusitana nesta zona, bem anterior às fundações das jovens cidades de Moçâmedes e Lubango.

Homens inconformistas foram classificados ridiculamente como brancos de 2ª classe por alguns mentecaptos do Continente, a quem, como em todas as épocas, a ingestão tradicional de vinho mal bebido teria perturbado com gravidade o desenvolvimento intelectual.

Conhecedores da Arte Benquista da Navegação à Vela e da Orientação Astronómica, tinham atrás de si uma verdadeira epopeia.. Capazes de sobreviver a viagens através do grande Atlântico, acompanhados de mulheres e crianças, para o Brasil, pela Madeira, pela ilha de Santa Helena, alguns fugidos da perseguição aos heterodoxos no limiar do Século XVII, outros, viajados de Pernambuco no Século XVIII, por perseguições políticas, e, ainda, maçons vilipendiados pela acção da igreja católica, considerando os dados do nosso Tesouro Secreto, estes brancos não nos parece terem muito de 2ª.

Desembarcados uns quantos na árida praia do Namibe, na baía onde nasceu a cidade de Moçâmedes, eventualmente pouco adaptados às lides piscatórias e ao agressivo cheiro do pescado, separaram-se aí de parte dos seus heróicos companheiros. Partiram então através do escaldante deserto, não sabemos com que meios, para conseguir vencer tal viagem, nem como transportaram a água, nem de onde a teriam extraído, para uma travessia de mais de uma centena de quilómetros de pedras, dunas, plantas espinhosas, uma fauna de certo desconhecida, composta dos mais variados animais, desde os perigosos escorpiões às víboras da areia, desde as alcateias de mabecos ao camuflado leão do deserto!

Que conhecimentos trariam consigo, que força indómita carregavam nos seus espíritos insondáveis para assim enfrentarem um mundo desconhecido?! ... Como teriam ficado espantados com a presença austera da Tumbôa (Welwistchia Mirabilis), como um dos poucos seres vivos, habitantes daquele mar de areia que encontraram nos primeiros dias de viagem?! ... Qual teria sido a reacção dos povos gentios que enfrentaram mais tarde ?... Os mucuisses, os croques, os muximbas e os mucubais, povos guerreiros que se digladiavam há séculos! ... Onde é que há escritos que descrevam as odisseias desta gente sem par?

Alguns detalhes na nossa memória nos indicam que o seu trajecto em busca da paisagem verde foi dar à célebre fortaleza de Capangombe, padrão das guerras contra os Mucubais, e que a escalada da imponente Serra da Chela se efectuou pela Leba e pela garganta do Bruco, tendo ficado um grupo na zona do Tchivinguiro e o outro no Royvalle, neste recanto espantoso do Paraíso Africano, com cambiantes de vermelho vivo na vegetação, que lhe deram o nome de origem holandesa.

Os mais variados tons de verde da floresta de mupandas, múmues, mussibes, mutiates e mulembas enquadram, ainda hoje, este Vale Vermelho, espantoso cenário da Natureza planáltica, em perfeita harmonia com formações rochosas, de tal beleza e capricho como nunca mais voltámos a ver. Viajados que somos, por desertos da Arábia, Cordilheira Andina, Suiça, Pirinéus, etc., jamais encontrámos nada que tão profundamente nos tocasse! Este planalto tem altitudes superiores aos 2000 metros.

Aqui existiam também com profusão as mais variadas qualidades de frutos silvestres, minhangolos, matombotes, maiolos, nochas, matchatchalas, maboques, n´onculoventes, matipatipas e outros, delícias dos nossos passeios pelo mato, e, que dada a expansão das espécies tradicionais, lamentavelmente, estão em vias de extinção. Duas qualidades comestíveis de cogumelos, as gigantescas lobas e os tortulhos, que no início da época pluviosa formam um alvo tapete debaixo das copas das árvores. Nalguns locais, oferecem o aspecto de neve, o que originou o nome da Serra das Neves, num trecho da Chela, entre a Humpata e o Lubango, onde não há memória de ter nevado.

Foi aqui, nas terras altas da Huila, que Hermenegildo Capelo, nas suas notáveis explorações africanas com Roberto Ivens, encontrou um extraordinário grupo de agricultores, que transplantaram as espécies mediterrânicas para estas distantes paragens de outro continente. Aí viviam felizes, realizados, com a cultura lusa de tal nível e qualidade que o convívio harmonioso, atingido com povos tão diferentes como os muilas e os muximbas, espantava qualquer cientista.

Foi neste recanto de um Paraíso Vivo, real, que vivi até aos dezasseis anos. A Fazenda de S. Januário, expoente da criatividade humana e da tenacidade do meu avô, para além de conter todos os produtos agrícolas necessários à sobrevivência com qualidade de vida de um número incalculável de pessoas e ainda gado bovino, caprino, cavalar e suíno, estava estruturada com alojamentos em duas casas, que muitas vezes abrigaram imensas pessoas, Desde familiares e amigos que aí iam passar férias, ou restabelecer?se de doenças ou de longas estadias em maus climas, até a famílias que surgiam de repente, recomendados por gente nossa conhecida. Nunca tive notícia de alguma vez isto representar qualquer fonte de rendimento. Era apenas motivado pela grandiosa hospitalidade, tradicional da nossa família e de todos os angolanos, pelo gosto de conviver com nova gente.

FOTO 3

Entre a casa principal de São Januário e o armazém dos produtos agrícolas, um campo de ténis pavimentado a cimento branco fazia as delícias dos desportistas. Era também o nosso campo de patinagem e o recinto onde aprendíamos a dar as primeiras pedaladas de bicicleta. Defronte, um espectacular lago, com uma ilha ao centro, guarnecida por enorme eucalipto e totalmente bordejada de bambus, em cujo leito macio os patos procriavam, fornecia as condições ideais para os amantes dos desportos aquáticos. Funcionava como reservatório de água para rega dos pomares e das restantes culturas, pelo que garantia a pureza constante desse precioso líquido, conduzido directamente por gravidade, da nascente do Rio das Neves, a menos de meia dúzia de quilómetros.

Outro motivo para recreio de todos nós, e mais ainda dos visitantes, era a quantidade de burros e cavalos amestrados, pois, sendo estes amigos do homem o transporte da época, tínhamos sempre mais do que um para cada pessoa da família.

São Januário era o local predilecto de férias, para os nossos amigos, colegas do liceu, primos que viviam no Lubango e para a minha família materna que vivia em Moçâmedes, onde o meu avô Gavino era funcionário bancário. O Chico, a Judite e a Jovita foram os meus companheiros de infância, e o Ângelo, o Lino e a Juventina, mais velhos, vinham visitar-nos no Natal ou passar uns dias de recreio. Entre os nossos amigos, vinham de Luanda o Calita, o Rogério e o Marques Pinto; de Benguela o Mesquita; de Nova Lisboa o José, o Álvaro, o Carlos, o Victor, o Mário, a Lucília e a Aida Barros e, entre os familiares, conto como mais assíduos a Lúcia, a Luzinha, a Fina e o Augusto de Moçâmedes; a Luisa, a Otília, a Natércia, a Méninha e o Luis Filipe do Lubango, as namoradas do Chico, a Manuela C.A., a Ló Mesquita. Da Humpata, vinham os nossos primos que eram mais que muitos e a Luisa, o Zeca, o António e a Eugénia Costa Afonso, o Antoninho Neto, o Armando, o Luiz, o Hermínio, a Ilda, o Albano e o Fernando Maximino ... Desde a pesca à caça, apanha de pássaros com visco, fazer com que as visitas antipáticas e as senhoras bonitas pisassem carreiros de quiçonde (formiga voraz que só morde quando alcança lugares indiscretos), piqueniques e passeios em carro boer, de burro e a cavalo, a natação, o ténis e a patinagem, tudo se praticava durante as férias, para não falar nos amores salutares da juventude ... que dariam romance que chega ! ...

FOTO 4

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