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A CAÇA

Na região do Mundo mais rica em espécies cinegéticas, a caça fazia parte da vida. No entanto, pelos perigos que dela decorriam, pelas condições que cada um tinha que reunir para conseguir caçar o que pretendia, a mestria da arte da caça não era apanágio de todos.
Girafas

Desde a captura de pássaros com visco e de répteis à mão; e da caça com fisga às rolas, pombos e pássaros que proliferavam aos milhares nesta zona de gramíneas espontâneas e cereais, passando pelas armas de carregar pela boca até às melhores carabinas e caçadeiras, desde tenra idade começámos no nosso meio a desenvolver, com sapiência, essa arte. E iniciávamo-nos na vida de caçador com tal disciplina e saber que não há memória de qualquer acidente com armas, entre nós.

A fauna que nos rodeava era maravilhosa, naqueles primeiros quilómetros ao redor de S. Januário, começando pelas variadas e exóticas voadoras, desde os monsenhores cor de tintura, e beija-flores que frequentavam o nosso jardim, passando pelas bengalinhas e bigodinhos , que pedem meças a qualquer canário ou pintassilgo, dando um cunho de encantamento aos nossos pomares com o seus cantares inigualáveis; bandos de cardeais no tempo da massambala; canários de cabeça preta que carregavam as árvores com centenas de ninhos tecidos com primor; bituites azuis e vermelhas; toutinegras que povoavam as goiabeiras; pombos verdes que vivem dos figos das mulembas, viuvinhas, tchiquériquéris e sacabulos que enfeitavam as chanas, às tuas reais do tamanho de perus, patos de crista, marrecos reais, blandiras, patos migratórios e jandas ou javas (o maior ganso do mundo) com mais de 20 quilos, perdizes, codornizes, etc., às lebres, coelhos bravos, javalis, jimbosjimbos e porcos-espinhos, pequenas gazelas como a punja, o caxine, a conca, o bambi e o nunce. A pé ou a cavalo, qualquer deles poderíamos encontrar, em dia de sorte, entre o rio Nene e a Serra das Neves, entre o Posto Agrícola e a Serra da Huila, nenhum destes pontos a mais de 10 quilómetros da nossa casa.

FOTO 8

Caçador, pintor, autodidacta em fotografia e artes gráficas, especializado pelos cientistas da Missão da Pentamidina em recolha de amostras durante o combate às endemias dos povos de toda Angola, o Lino reunia qualidades e capacidades de adaptação que lhe conferiam, com segurança, a classificação de Homem Dotado. De excelentes relações humanas e amigo das crianças como ninguém, temos do seu companheirismo gratas recordações. Percorri com ele, desde criança, a pé e a cavalo, as colinas maravilhosas da indescritível Serra da Chela, cascatas, rios e lagoas e foi com ele que melhor desenvolvemos a arte da caça, da pesca e da equitação. Amestrar potros sem violência era outro predicado raro, que o distinguia. A alma de artista que o animava fez dele uma pessoa diferente de todas as que conhecemos, com desprendimento total da faceta materialista de vida, o que o tornou incompreendido pelas pessoas vulgares.

Como dirigente das publicações do IICA, Instituto de Investigação Científica de Angola, enriqueceu aquela documentação histórica com elementos de sua recolha, numa vivência ímpar de anos e anos em plena Selva Africana. Assim como no Museu da Huila, de que foi Director nos últimos anos que viveu em Angola. Acreditamos que à sua extrema sensibilidade, pelo desgosto de ter que abandonar a sua Terra Mãe, se deve a sua prematura viagem para a Eternidade.

A caça grossa começava a surgir para o lado de Moçâmedes, no Chão da Chela, onde já havia o holongo (kudo ou ungiro), manadas de búfalos cafer, elefantes e rinocerontes, zebras, e, mais para o deserto, logicamente com acentuada predominância no Parque do Iona, o orix-gazela ou guelengue do deserto, avestruzes, cabras de leque, todos os pequenos antílopes já mencionados e os predadores: leões, hienas, leopardos, chacais, linces, mabecos às matilhas e diversas espécies de águias, abutres, corvos que se encontravam por todo o Sul e répteis: a jibóia, a mampa cor de chumbo e, em quantidade assustadora, a surucucu, que nesta zona atinge tamanhos descomunais.

Um comerciante de Capangombe tinha uma pele de surucucu, pregada na parede do seu estabelecimento, cuja largura era de 1,5m e o comprimento passava um pouco dos 2 metros, o que denunciava um monstro com mais de 80 quilos. Os desenhos da pele, a desproporção entre o comprimento e a largura e a configuração da cabeça não deixavam lugar a dúvidas.

Os diversos macacos abundavam e os babuínos negros infestavam todas as Serras, do Chão da Chela até ao Caracul e daqui para o Sul em direcção ao Iona e para o Norte até aos Quilengues, onde quase todas as espécies que referimos apareciam com relativa profusão. Para o Sul, depois da Chibia, a partir do Rio Tchimpumpunhime, na região dos Gambos, para as margens do Rio Cunene e daqui para Ganguelas, Cuando-Cubango, etc., encontravam-se as mais variadas espécies dos grandes antílopes, elefantes, rinocerontes, hipopótamos e jacarés em todos os rios.
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