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"A Partilha" (Parte I), conto de Natal, por Joaquim de Lisboa

- O que acha que a levou a optar por ser cooperante voluntária?
Natal
A voz do inquiridor era simpática mas incisiva e as perguntas sucediam-se.

A jovem não estava à espera que a sua inscrição para prestar serviço voluntário em África para aquela Organização levasse a um inquérito pessoal tão exaustivo.

- Talvez por ouvir continuamente em casa os meus pais falarem de África com tanto amor e saudade e acharem que a idade já não lhes permite regressarem - respondeu.

- Acha então que deve, de qualquer modo, pagar a dívida que os seus pais sentem dever a África?

- Não tanto uma dívida... sabe! - retorquiu. Eu vim com poucos anos de idade. Nasci lá, mas poucas recordações guardo. No entanto cresci com a presença de África dentro de casa. Os quadros nas paredes, as conversas, os amigos dos meus pais...até a comida, fizeram de África uma presença constante na minha vida. Agora que acabei o meu Curso de professora, acho que devo ir eu, dar um pouco de mim a essa terra que não cessa de me interpelar.

- Bom…se ouviu tudo isso sabe também que a África que irá encontrar é uma terra com graves carências e que uma vez lá terá que, por vezes, adaptar-se e saber inventar para sobreviver. À parte todo o apoio que possamos prestar, alturas haverá em que estará quase entregue a si própria e àquilo que consiga organizar à sua volta - a voz do entrevistador era firme clara.

- Sim! - respondeu, já não tão certa do seu querer -. Tentariam intimidá-la? - pensou.

- Bom! - o entrevistador ajeitava os óculos que lhe escapavam para a ponta do nariz enquanto consultava os papéis que estavam à sua frente. Vou dar a entrevista como positiva e entregar-lhe estes livrinho de normas para ler. Faça o favor de ler isso com atenção e avise-nos quando estiver disponível para frequentar o Curso de Formação. As nossas normas são: Que não saia daqui sem ter uma ideia clara do que se pretende de si e do panorama que irá encontrar. Como calculará não desejamos que parta com ideias menos claras e que se veja obrigada a pedir o seu repatriamento antes do fim do período previsto.

Anuiu com a cabeça e apertou a mão que se lhe estendia. Cá fora, na salinha de espera outros rostos tão jovens como o seu, aguardavam. Por momentos todos a olharam inquisitoriamente para logo se baixarem quando a voz invocou outro nome para a entrevista.

Chegou a casa e contou à mãe onde tinha ido. Esta olhou-a como se fosse a primeira vez que a tivesse visto e exclamou:

- O quê? Só me faltava que agora te desse para teres espírito de missionária. Ires para África? Nem penses! Acho que andas a ver telenovelas de mais...

- Mãe!!! Não são vocês cá em casa que todos os dias falam de África? Que África era assim e assado? Alguma vez se passou um dia sem que nesta casa se falassem daquela terra pela qual ainda hoje choram baba e ranho?

- Filha, isso é diferente. Eu e o teu pai vivemos lá os melhores anos das nossas vidas. Concretizámos sonhos. Foi lá que nasceste, mas nada conheces de África e não penses que as coisas são tão fáceis como...falar.

- "Tá" … mãe! Falar é o que oiço mais. Aqui em casa e... lá fora. Resta-me fazer alguma coisa. E que melhor altura que esta agora que acabei o Curso e ainda não tenho nada que me prenda? Um ano passa depressa, sobretudo se for bom. Se for mau...também há-de ter um fim. Tenha calma que ninguém me vai comer por lá.

Isso era o que a mãe, precisamente, temia. Onde é que já se viu uma garota, mal acabada de sair da Faculdade fazer-se ao Mundo para uma terra que agora tinha descido na escala da estabilidade para níveis impensáveis. O pai a poria no seu lugar...estava certa.

Afinal o pai, quando informado pela cara-metade do sucedido, não reagiu como ela esperava. Decididamente estava tudo maluco - pensou a mãe, desatando a chorar como uma Madalena.

Aquela casa, sossegada até ali, passou a ser um foco de quezílias. A filha segura do direito que lhe assistia em decidir o que desejava fazer. A mãe que nem queria ouvir falar em semelhante hipótese...e o pai que quase não emitia opinião, parecendo querer posicionar-se ao lado das duas.

Finalmente inscreveu-se no tal Curso de Formação onde, durante um mês ia aprender o bê-á-bá da sua missão.

Gostava sobretudo da forma directa como os assuntos eram ali abordados. Não só os que diziam respeito ao tipo de aulas e composição das turmas, mas também como reagir a situações críticas da parte dos alunos, dos pais dos alunos, das próprias autoridades e... da criminalidade...se com isso se visse confrontada.

Não deu o seu tempo por mal empregue. Era de um curso assim que as suas colegas precisavam. Uma coisa virada para a realidade e não aquelas, muitas das vezes, fastidiosas aulas na Faculdade, que tantas vezes só davam.... sono!

Nem só por uma vez se confrontou com esmorecimento na sua vontade de levar para a frente o seu desejo. Em casa a mãe começava a interiorizar a coisa e já não passava o dia a acicatá-la com dúvidas...e o pai…esse até parecia que era ele que ia para fora! Aliás, os próprios pais, inquiridos pela Organização quanto à possibilidade de uma entrevista a isso não se furtaram e vieram de lá... convertidos...ou quase! Isto animou-a naqueles dias que antecediam ao stress da partida em que, sobretudo a mãe, não havia maneira de dar por concluída a lista de coisas que achava necessário a sua «menina» transportar consigo.

- Oh...mãe.... Eu não posso levar o avião carregado só para mim. Se eu precisar de alguma coisa...depois eu peço e a mãe manda-me... - era como acabavam todas as conversas.

- E julgas que se eu mandar... que vai lá chegar alguma coisa? - respondia a progenitora.

Finalmente o grande dia chegou. No Aeroporto, além dos pais, um elemento da Organização dava-lhe as últimas instruções e sossegava os pais com a certeza de que a filha seria, imediatamente repatriada, se algo ocorresse fora do previsto ou se fosse atingida por qualquer doença mais grave. Isto pareceu deixar os pais mais sossegados.

Chegou a hora dos últimos abraços quando os alto-falantes da sala chamaram para o voo. Como era previsível, lágrimas rolaram, mas a sua determinação não fraquejou.

No cimo das escadas, em que só os passageiros seguiam em frente tiveram lugar os últimos abraços e conselhos. Estendeu o seu bilhete e documentos ao funcionário encarregue de fazer as verificações e viu-se com o destino à sua frente. Tinha lutado...tinha vencido. Até as suas colegas a tinham passado a olhar como se fosse uma extraterrestre, quando souberam da sua decisão. Por isso nem as tinha convidado para esta despedida e de resto...nas despedidas, quanto menos gente melhor - pensava enquanto se dirigia para a última cancela onde os seus papéis foram, uma vez mais, passados a pente fino.

Daí a pouco estaria confortavelmente sentada no seu lugar, a bordo daquele avião que, em poucas horas, a iria colocar noutro Continente.

Não era a primeira vez que viajava de avião, daí o não sentir excitação quanto ao voo em si. Gostava da sensação de força de toda aquela máquina e sabia da cuidadosa manutenção a que eram submetidas as aeronaves. Se algo corresse mal era porque os imponderáveis aconteciam em todo lado...e também nos aviões. Quanto a isso estava sossegada. Era uma pessoa racional e concreta. Não era tocada por misticismos, por isso não era levada aos extremos das rezas da mãe.

Estava tudo correndo como o planeado. Do alto verificava as mudanças na paisagem que se desenrolavam por baixo e, do seu lugar à janela, ocupou-se em ver como o verde era substituído pelo tom torrado das areias daquela África que começava ali, mesmo aos pés de Portugal.

As horas nem sequer lhe pareceram mais compridas durante o voo. Claro que ia ocupada com os seus pensamentos e, relembrava, linha por linha, os ensinamentos do Caderno de Procedimentos.

E se não estivessem no Aeroporto à sua espera? Era uma dúvida razoável... mas até para isso lhe tinham dado resposta. Tinha consigo números de telefone... moradas e... algum dinheiro. Como costumava dizer quando algo a assustava: "No Panic!", tradução livre que adaptara da frase do seu pai para momentos graves..."Não há nervos....!"

As horas iam passando e foi com satisfação que ouviu a hospedeira de bordo anunciar:
- «Senhores passageiros, dentro de vinte minutos vamos aterrar no Aeroporto de.... A temperatura é de 26º e não chove. Pedimos que endireitem as costas das vossas cadeiras e apertem os cintos de segurança... e que tenham gostado de viajar connosco.... blá.... blá...»

Esta conversa já ela conhecia de cor e salteado de modo que fez o que era pedido e aguardou até que o barulho dos motores mudou significativamente e sentiu o nariz do avião a inclinar-se para baixo.

Estavam a chegar. Ia começar a tornar em realidade o seu sonho! Um sonho que não era mais do que tentar por em prática o muito que tinha aprendido naqueles anos de Curso em que as noites eram muitas das vezes passadas em branco na busca de informação que a levassem a permanecer nos lugares da Turma a que sempre estivera habituada...os do topo.

Via a terra a aproximar-se, os bairros com casas de telhados de zinco que se prolongavam por todo o seu campo de visão e, sobretudo, aquela terra vermelha que os seus pais não se cansavam de referir.

Com um pequeno solavanco sentiu o avião tocar a pista para logo os motores, com grande ruído, auxiliarem na travagem. Dentro de momentos «taxiavam» para a gare onde estariam, certamente, à sua espera.

Quando assomou à porta do avião o ar quente bateu-lhe no rosto como a dar-lhe as boas vindas, o que lhe provocou um estremecimento. Sentiu que realmente, algo tinha mudado. Afinal era aquele famoso "ar" de África?

(Continua ...)
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