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Livros de Autor
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"A Partilha" (Parte II), conto de Natal, por Joaquim de Lisboa

Os Serviços Oficiais não foram tão eficientes como outros porque já tinha passado mas de qualquer modo as perguntas foram correctas. O seu visto e documento das funções que iria desempenar eram o exigido.
Natal
O Funcionário carimbou os documentos e desejou-lhe mesmo um.... Boa Sorte...

As suas malas foram recolhidas da passadeira mecânica dentro de uma confusão que julgou...aceitável. Tentou obter um carrinho para as transportar mas por fim, como ambas tivesse rodas, optou-se por puxá-las pelo pavimento liso em direcção à saída.

Encarou com toda aquela multidão que do lado de fora esperava os passageiros e, aquele choque de ver tantos rostos escuros gritando na sua direcção...intimidou-a. Parou um momento e ficou percorrendo com o olhar toda aquela gente na esperança de que algo lhe chamasse a atenção.

Finalmente conseguiu descobrir um papel com o seu nome. Percorrendo com o olhar o braço do portador deu com uma cara já idosa, de uma cor indefinida, a quem acenou.

A pessoa veio na sua direcção e, quase antes de a cumprimentar, abarbatou-lhe as malas o que quase a assustou.

- Seja bem-vinda menina Florinda. Sou o José Marques - apresentou-se. Como correu voo? Está bem disposta? - inquiriu.

- Normal... Sim... tudo bem.

Por esta altura já estavam rodeados de rapazes que pretendiam fazer de carregadores e cujas mãos cercavam as malas por todos os lados. Foi nesta altura que o Zé Marques proferiu uma frase em língua que lhe soou estranha e no meio da qual apenas lhe pareceu ouvir a palavra "professora". Fosse o que fosse que lhes tivesse dito, sortiu efeito e num instante abalaram em busca de outro possível passageiro interessado nos seus serviços.

- Isto aqui é assim - dizia o Marques - Quem vem de fora é procurado na esperança de se ganhar o dia com a ajuda prestada. Mas temos que ter atenção... aqui como em todo o lado!

Dirigiram-se para o Parque automóvel. Daí a pouco rolavam pela ruas da cidade, até pararem numa rua secundária.

- Ora cá estamos no nosso quartel-general. Pode não parecer...mas é. É aqui que recebemos as pessoas e é daqui que coordenamos e distribuímos o apoio possível. Evidentemente que não vai ficar a trabalhar aqui. Vai ser encaminhada para um local, onde temos necessidade de pessoas com as suas habilitações. Vai-lhe ser dada a escolha dentre os lugares disponíveis e eu irei ajudá-la a optar, esclarecendo-a.

Subiram por uma sólida escada que já tinha conhecido melhores dias, mas de qualquer modo via-se que era limpa com regularidade. Entraram numa sala e logo três pessoas se levantaram das respectivas cadeiras e vieram ao seu encontro, saudando-a. Duas dessas pessoas eram de cor...notou. As malas foram conduzidas para um pequeno quarto e foi-lhe dito que seria o seu até que escolhesse o local das suas funções. Foram-lhe indicadas as instalações sanitárias e viu uma sucessão de bilhas improvisadas com água.

- É para as faltas - disseram-lhe. Por vezes as coisas não funcionam como deviam...temos que estar preparados.

Como estava a acabar de sair de um avião, com ar condicionado, a necessidade de um banho não era uma exigência e tendo respondido negativamente à pergunta se tinha fome logo o Zé Marques lhe propôs um passeio pela cidade enquanto conversavam. Daí a momentos entravam de novo no carrito, por sinal com um aspecto sofrível e faziam-se às ruas da cidade que não lhe parecia, afinal, diferente em casas e pessoas, dos bairros limítrofes da sua, agora longe, Lisboa.

O Zé Marques parecia um papagaio enquanto desbobinava, o que lhe parecia ser uma cassete gravada, para acolher todos os que chegavam. Falou-lhe da penúria nas Escolas e no grande desejo de aprender da maioria dos pequenos e, ás vezes, grandes, alunos. No quanto era preciso inventar e, sobretudo, não se deixarem abater por aquilo que pudessem considerar serem as injustiças da sociedade.

- Estamos aqui para ajudar - dizia - Não estamos para criticar. Faremos o nosso melhor com o que temos...mas não acima dum esforço razoável. Aceitaremos decisões que nos possam parecer absurdas e não discutiremos as ordens que nos forem transmitidas. Não estamos aqui para ser mártires. Uma parte de esforço e outra de sacrifício...sim. Mártires...não! Compreenda isso... e nunca esqueça: Aqui somos uma Equipa!

- Amanhã - continuou - vou-lhe mostrar os três lugares que temos pensados para si. Da parte da manhã iremos a dois que se situam dentro do perímetro da cidade mas afastados do Centro e de tarde espero que ainda possamos ir ao que dista umas dezenas de quilómetros. Dar-lhe-ei, até, a minha opinião sobre qualquer deles. Os da cidade têm a vantagem da proximidade mas as turmas são um pouco mais insubmissas. O que se situa naquilo que foi uma pequena povoação para lá das portas da cidade tem menos apoio material mas incomparavelmente mais aceitação e reconhecimento da população e alunos.

Enquanto isso passaram pelo centro da cidade que tinha os traços de qualquer cidade europeia e, naquele fim de tarde, com as pessoas a dirigirem-se para os autocarros e outros meios de transporte mais pequenos, que lhe pareciam carrinhas particulares que arrancavam com a lotação muito acima daquela que em tempos lhe tinha sido atribuída. Regressaram pelo lado oposto àquele por onde tinham partido, acabando assim por fazer um trajecto em círculo o que a levou a ficar com uma panorâmica geral da Baixa da cidade.

O jantar que se seguiu, confeccionado nas próprias instalações, não foi um banquete mas via-se que se tinham esforçado para receber as visitas. Engraçado, pensou, como hoje em dia as frutas se tornaram universais e, das expostas na fruteira da mesa, todas ela conhecia. Banana, Abacate...Goiaba...Fruta Pinha. Conversaram. A temperatura era agradável, por estarem a sair do cacimbo - disseram. Lá mais para a frente - avisaram - irá subir mais e surgirão os danados dos mosquitos. Para se proteger vai começar já a tomar os comprimidos anti-malária. Desses a mãe fizera questão de lhe meter na mala uma quantidade que julgou muito acima do razoável!

Quando finalmente se deitou no seu quarto ficou a pensar onde realmente se tinha metido. Mas estava tudo bem...por agora. Acabou por adormecer. Os seus sonhos foram povoados de aviões e cheiros estranhos, de montes de gente que caminhavam, caminhavam sempre... e de crianças...muitas crianças. Acordou antes da hora prevista, mas pelo menos não tinha tido insónia. Dirigiu-se à casa de banho e tomou um duche tentando gastar a mínima quantidade de água. Com o olhar marcou a sombra da quantidade de champô existente no frasco e prometeu fazê-lo durar o mais possível, assim como o sabonete e pasta dentífrica. Iria poupar...poupar...poupar!

Já estava preparada quando os restantes elementos se começaram a movimentar. Respondeu com um sorriso às perguntas matinais afirmando ter dormido...como um bebé. No seu desejo de se integrar foi para a cozinha ajudando a preparar o pequeno-almoço que foi tomado com apetite.

O Zé Marques estava de camisa com floreados e de calções. Olhou-a e aprovou a sua indumentária de calças de ganga e camiseiro.

- Fez uma escolha certa - afirmou. Conversaram sobre as escolas que iriam ver. Ela surpreendeu-o pedindo para inverterem a ordem da visita. - Porque não começar pela que ficava mais distante? - perguntou.

- Também pode ser. Nada como chegar de surpresa. Vamos a isso!

Na rua aguardava-os o carrito que apesar do seu ar pouco atraente parecia estar, também ele, imbuído do espírito de missão, roncando alegremente por um tubo de escape que já conhecera melhores dias. Saíram do centro da cidade, para onde começava a fluir àquela hora o trânsito e pouco depois já estavam nitidamente fora de portas ainda que as casinhas de rés-do-chão ladeassem todo o percurso.

O Zé Marques ia acrescentando pormenores.... - Sabe - dizia - esta cidade tinha à altura da independência, apenas um sétimo ou um oitavo da população actual e o resultado está à vista...falta de infra-estruturas e tudo o mais. Daí que não seja possível fazer grandes avanços numa sociedade que apenas luta pela sobrevivência. Por isso cá estamos...para ajudar!

Os quilómetros eram feitos a velocidade cada vez mais reduzida pois a estrada acabava por piorar consoante iam avançando. E dizia o Zé:

- Ainda não começaram as chuvas a sério...e a partir daí vai piorar.

Não era uma perspectiva muito agradável para quem estava habituada a reclamar sempre que um pequeno buraco fazia saltitar o seu carrito agora parado na garagem dos pais.

- Nesta escola, como em tantas outras - avisava o seu acompanhante - trabalha-se com turmas numerosas que englobam as quatro primeiras classes. Se gostar do local e acolhimento ficará instalada numa pequena casa recuperada pelas populações e terá consigo uma ajudante que lhe servirá de secretária, intérprete, dama de companhia, cozinheira, lavadeira e guarda-costas. É a Milena... e esteja descansada que ficaria bem entregue...só conseguiriam chegar a si passando por cima do cadáver dela...e antes disso a luta iria ser brava...

A referência a lutas não lhe agradou mas deixou um sorriso aflorar no rosto que por esta altura já apresentava gotas de transpiração. O ar de África estava reclamando o seu pedaço.

Acabaram por chegar. Havia casinhas primitivas por todo o lado que irradiavam de um largo central onde se viam casas de construção europeia mas com os tijolos à mostra pela idade e pelos muitos buracos de origem variada. Começaram as visitas pelas instalações da polícia onde se apercebeu já saberem da sua chegada. De seguida visitaram o Posto Sanitário onde deparou com um casal de enfermeiros brancos que falavam um português espanholado e onde foi logo recebida com a oferta de um refresco...que aceitaram. Também eram voluntários de um país estrangeiro e com os quais simpatizou, quase lamentando os minutos que roubava no atendimento da enorme fila que se quedava à porta do posto. Ao referir esse pormenor foi avisada... «Aqui as coisas fazem-se devagar...devagar... Por muita rapidez que puséssemos no atendimento a fila não iria acabar e o nosso stock de material e medicamentos não nos permite ir além dos casos mais graves...»

Em seguida foram ver por fora a casa que era habitada pela Milena. Estava fechada. Dirigiram-se para a escola que mais não era que um local ao ar livre entre árvores ao lado de um pequeno edifício de onde certamente a turma tinham extravasado. Ao aproximarem-se, o barulho característico de dezenas de vozes emudeceu como se tivessem rodado o volume de um rádio. Lá da frente encaminhou-se para eles a que não podia ser outra se não a Milena.

Após a troca de saudações e apresentações a Milena, professora improvisada, bateu as palmas e de todas aquelas bocas saiu, certinha, uma frase bem soletrada certamente muito ensaiada, que de todo não esperava: «Bom Dia, senhora professora!»

Sentiu um frémito e a sua cara suada, corou. Percorreu com o olhar cada um daqueles pequenos rostos e sentiu-se tocada. Todos a olhavam como se dela lhes viesse a salvação. Era algo que lhes estava prometido. Sentiu que não podia ludibriá-los. Esteve quase a declarar que sim....sim iria tomar conta deles. Mas também sabia que não devia ceder a impulsos entusiásticos e com a voz travada pela comoção apenas respondeu: «Bom dia meninos e meninas. Obrigada!»

A Milena com o desembaraço que irradiava do seu rosto, tornou a bater as palmas e anunciou o recreio. Sem que fossem chamados, acercaram-se dela os chefes de turma que receberam ordens de manter as crianças restantes ocupadas pelo tempo que fosse necessário.

Havia uma organização, notava-se, em tudo aquilo. Isso agradou-lhe. Foram ver a casa. Por dentro estava melhor que o que demonstrava por fora. Os dois quartos mostravam-se limpos e acolhedores. A casa de banho funcionava com uma fila de vasilhas de água encostadas à parede e do tecto pendia um balde com umas correntes que identificou como sendo o chuveiro de campanha. A cozinha era espaçosa e no lugar do fogão estavam dispostos os restos de madeira ardida que tinham constituído uma fogueira. Um fogareiro a petróleo estava em cima de um banco alto e numa grade de madeira dispunham-se algumas panelas, a maioria amachucadas mas brilhando. Na sala estavam empilhados o que seria o espólio escolar. Livros e revistas, caixas que deveriam conter de tudo um pouco, mas mais pouco que muito em face às necessidades. Olhou pela janela e achou que o movimento na rua tinha aumentado. A Milena...riu-se.

- Já sabem que a senhora professora está cá e todos querem vê-la - disse.

Tanta curiosidade assustava-a. Sabia contudo que isso era natural e que uma vez exposta tudo voltaria ao normal. Por sua vez o Zé, adivinhando os seus pensamentos, sussurrou-lhe:

- Se optar por ficar, será apresentada numa reunião e acredite, sobretudo nas mulheres, vai ter uma falange de defensoras que nem lhe passa pela cabeça. Aqui uma professora é sagrada! E a propósito de coisas sagradas...vai gostar do padre Holandês que toma conta deste rebanho. Passa cá duas vezes por semana.

As horas passavam. Iriam regressar. Na despedida julgou ver nos olhos da Milena uma grande esperança. Os beijos de despedida já fora diferentes dos formais à chegada. Ela era simpática e enérgica. Tinha estudado um pouco numa missão católica e era o que se podia dizer...uma mulher de armas...parecia-lhe!

De novo o carro balouçou nos buracos da estrada e o seu corpo aos poucos ia-se habituando ao saltitar constante. Fizeram um pequeno desvio para passar por um outro aglomerado onde o Zé foi visitar um amigo que tinha um pequeno desenvolvimento agrícola onde produzia legumes que eram canalizados, na sua maioria para os hotéis da cidade. Gostou de ver as hortas tratadas e as alfaces com aspecto saudável. Sobre elas debruçavam-se os trabalhadores que arrancavam um ou outra erva daninha enquanto catavam lagartas e outras bichezas que por ali pretendiam fazer estragos.

Pareceu-lhe, ao ver a caixa de alfaces e feijão verde a ser metida no pequeno porta-bagagem, que esta não tinha sido uma visita inocente. Não sabia como as coisas funcionavam por ali. Mas como não viu falar no pagamento dos géneros achou que de algum modo devia funcionar a conta corrente.

Já no caminho o Zé enalteceu o amigo:

- Sabe - disse - cansou-se da cidade e veio para aqui desenvolver este projecto. No princípio foi difícil enquanto não conseguiu ter as coisas a funcionar e sobretudo, resolver o problema da água, foi um quebra-cabeças. Mas abriu cacimbas e arranjou motores e agora dá emprego a umas vinte pessoas diariamente. Cada palmo daquelas hortas foi passado a pente fino para retirar todos os destroços metálicos e foi encontrada mais que uma mina enterrada. Agora aquilo está seguro e ele vai lentamente, expandidos os limites das hortas. Até um ministro já cá veio visitá-lo.

Finalmente chegaram. Do porta-bagagem do carro foi retirada a caixa das verduras que se apresentavam agora mais esmorecidas com o calor suportado. Duas gordas alfaces foram colocadas em sacos plásticos e a cozinheira logo saiu com elas porta fora.

- Vai ali aos vizinhos mais chegados - esclareceu o Zé - Aqui as coisas funcionam assim. Cada um que recebe algo que excede o rápido consumo distribui pelas pessoas que sabe precisarem. Por sua vez estamos sempre a receber surpresas. Vê estes abacates enormes? - e apontou para a fruteira - Olhe que vieram de uma Fazenda a uns bons duzentos quilómetros, para uma senhora que tem uma creche aqui na cidade. Mesmo assim mandou-nos esta meia dúzia... como não ficar sensibilizado e tentar retribuir?

Almoçaram. Achou o peixe delicioso e quiseram dar-lhe cerveja.

- Não....- protestou - Não bebo bebidas alcoólicas!

- Vá lá - tentou o Zé - não vou gostar de ver desaparecer esse tom rosado da sua pele!

- Porque acha que vai desaparecer? - perguntou.

- Bom.... é efeito do clima. Aqui nota-se quando uma pessoa chegou à pouco tempo de Portugal, por causa das cores do rosto. Com o tempo e umas picadas de mosquitos aliados ao bronzeado... adeus rosáceas!

- Ah.... - exclamou - entendo. Mas mesmo assim espero para ver e só depois decido se a cerveja dá cor!

Acabada a refeição logo se levantaram para lavar a loiça e a conversa passou para a visita feita de manhã.

- Que achou do local que lhe fui mostrar? - perguntou o Zé.

- Acho que dispenso as outras duas apresentações e fico já com aquele. Para ser franca gostei.

Fez-se silêncio. O Zé olhou para a ponta dos seus próprios dedos e acrescentou:

- Não perde nada em ir ver os outros... É que uma vez decidida, gostaríamos que não fosse um sacrifício demasiado estar lá todo o período escolar. Aqui na cidade terá mais convivência. Mesmo alguma vida social. Lá estará isolada. Verá poucas caras conhecidas. Claro que uma vez por outra farei coincidir as minhas visitas com o fim-de-semana e trá-la-ei a passá-los cá abaixo. Irá à Praia... ao Cinema. Poderá ligar aos seus pais, aos amigos...etc.

- Acho que estou decidida - respondeu - Ali estarei mais concentrada, mais disponível e vai ser uma experiência muito proveitosa... de parte a parte.

- OK. A menina manda. Vamos já passar à fase dois. Este é o manual dos programas para as quatro classes. O resto terá de inventar. Ensine conforme as capacidades que vá reconhecendo e abra aquelas cabecitas para o que quiser...ensine o que gostar...Higiene, Contracepção, Boas Maneiras, Matemática, Astronomia se quiser! Agora fica com a tarde livre...eu vou ao armazém fazer o inventário do que podemos dar-lhe para levar. Como costumo dizer....Fogo à peça!

Naquela tarde leu e releu o manual. Os objectivos a atingir estavam explícitos...o modo de os atingir nem tanto. Ia dar certo. À noite telefonou aos pais. Contou-lhe pormenores. Sobretudo ao pai, que dizia conhecer bem aqueles terrenos. A mãe por sua vez estava apreensiva por ela optar por ficar fora da cidade. Mesmo ali a notícia de que a professorinha tinha optado pelo subúrbio em vez de ficar na cidade correu por canais paralelos e chegou mesmo à Milena apanhando-a desprevenida. Apetecia-lhe rir e chorar ao mesmo tempo. Uma coisa era ter esperanças que isso podia acontecer...outra bem diferente era acontecer... Passou a notícia à turma que se quedou num silêncio. Seria que aquela menina bonita ia ficar mesmo com eles?

Organizaram-se equipas que passaram a pente fino todo o terreiro varrendo e arrancando ervas. A notícia propalou-se e dentro em pouco as mães acorriam para junto da pequena casa, cada uma delas carregando uma lata com água a qual além de encher todas as vasilhas disponíveis para o efeito, ainda sobrou para regar, abundantemente, todas as flores do pequeno jardim. À noite na Sede foi marcada a ida definitiva para a manhã da próxima segunda feira. Antes disso viria o fim-de-semana e com ele a festa - adiantaram-lhe.

- Qual festa? - quis saber a recém chegada.

- A festa da sua apresentação a todos os nossos amigos - disse o Zé. Ou julga que neste momento meia cidade não sabe da sua vinda? Vai haver festa e de arromba. Estão todos desejosos de te conhecer e nem imaginas a quantidade de pessoas que estão curiosas, além das da nossa Organização espalhadas pelos diversos pontos em redor da cidade.

- Mas eu não quero festa nenhuma! - resmungou. Não vim para festas!

O Zé, assumindo um ar mandão, ripostou rindo:

- A menina, aqui, vai fazer o que lhe ordenarem! Se eu descobrir que nos vai ser mais útil a cantar na Rádio...é para lá que irá - sentenciou!

- Bolas. Que mais me irá acontecer - pensou. Mostrou um sorriso e acrescentou em voz submissa.- Se tem de ser …

O fim-de-semana chegou depressa. Embora em todas as horas pensasse naqueles olhos que curiosos e expectantes que a esperavam na pequena vila, ou aldeia ou lá o que era aquele amontoado de barracas onde apenas meias dúzia de casas tinham direito, com boa vontade, a ostentar esse nome.

A preparação da festa teve início no sábado logo de manhã. Bem cedo foi conduzida para uma quintinha não muito distante do centro da cidade, onde foi encontrar uma dúzia de pessoas afadigadas nas mais diferentes tarefas todas elas relacionadas com a preparação do almoço. O que logo lhe chamou a atenção foi a quantidade de frangos que estavam a ser albardados com sal e gindungo na preparação daquilo que viria a ser uma importante churrascada. Mulheres e algumas crianças mais crescidas, de avental a postos, preparavam sobremesas e discutiam os últimos assuntos.

A coisa prometia. Por cerca do meio-dia buzinas de carros junto ao portão de entrada faziam anunciar os convivas e sempre que um deles despejava a sua bem completa carga logo ela era submergida de abraços e beijos e inundada de perguntas a que acabava por quase não dar qualquer resposta. Na confusão acabava por esquecer todas as apresentações e ficava sem saber quem era quem. De qualquer modo era tudo malta bastante jovem, ou melhor, já tinha notado que naquela cidade para onde quer que olhasse, só via gente jovem. Era um país a desabrochar. Via-se!

Ao almoço os convivas não deram por mal empregue os passos dados. O churrasco alternava com a carne assada e a galinha de moamba com o típico funge, que nunca se habituara a comer a despeito da insistência dos seus pais, adeptos ferrenhos de tal gastronomia. Era agora uma boa oportunidade para tentar!

As cervejas de garrafa e lata saíam fresquíssimas de lugares insuspeitos tal como um tanque que havia debaixo de um pé de maracujá e cuja água estava gelada certamente pela quantidade de gelo que lá havia sido depositada. Os mais pequenos bebiam sumos naturais preparados ali mesmo e após a primeira investida nas mesas gozavam à rédea solta das vantagens daquele local.

Após o repasto vieram as perguntas do porquê da sua decisão de para ali se deslocar. Mas o que cedo percebeu é que cada um queria contar a sua própria história. Os cooperantes, os voluntários, outros que tinham vindo na procura de um emprego e até um ou dois casais mais velhos que por ali estavam à muitos anos enfrentando tempos difíceis e outros melhores mas sem vontade nenhuma de dali saírem.

Foi um dia em cheio. À tardinha os gravadores começaram a despejar músicas com sabor local e depressa se viu envolvida num gingar de corpos em que cada um pretendia chamar para si as atenções dos restantes e as honras de ser o melhor executante deste ou daquele estilo musical. Quando já tarde na noite finalmente se deitou fê-lo com a mente liberta de todos os temores que nos últimos tempos a assaltaram. Mas compreendia...esta era a parte da Festa...na segunda-feira iria começar a trabalhar o que de uma maneira ou outra faria recair sobre os seus ombros um sem fim de preocupações.

No Domingo de tarde recebeu as últimas instruções. A maneira de actuar. Os conselhos de como lidar com as situações... e as advertências. Os amigos do Posto Médico seriam o seu elo de ligação em qualquer emergência. Eles possuíam um rádio e uma vez enviada a mensagem para a sua sede logo a comunicação chegaria onde devia. Por eles também devia mandar a lista de artigos de necessidade que o Zé levaria semanalmente. Ah...e devia fazer um relatório semanal para a Sede. Não devia em nenhum caso achar que isto ou aquilo não era importante. O seu relatório era necessário para eles na casa mãe, quer para afinar procedimentos quer para prevenir situações.

A lista do que seguiria com ela foi-lhe dada e por ela ficou a saber que além de umas esferográficas e uns cadernos, que não chegariam para cada um dos alunos, pouco mais haveria. Os livros eram pouco e a maior parte deles já usados.

- O caminho faz-se...andando - acrescentava o Zé. Conforme as necessidades e o que for chegando assim lhe serão distribuídos mais meios.

Amanheceu o dia. Além do já seu conhecido carro outra carrinha foi carregada com as coisas julgadas obrigatórias. Era uma casa mudada. Roupas, artigos pessoais de uso corrente, livros, o luxo de um candeeiro a gás com duas pequenas botijas de reserva. Enfim uma quantidade de pequenas coisas.

Desta vez até o caminho pareceu mais curto e foi com aparato e muitos olhares curiosos que os dois carros pararam à porta da sua já conhecida casa, enquanto uma Milena com um sorriso de orelha a orelha dava a todos as boas vindas e carregava tudo o que saía de dentro dos dois carros para dentro.

Recebeu os últimos conselhos e daí a pouco via-se só naquela casa com a sua companheira, afadigando-se as duas na tarefa de dividir e arrumar convenientemente tudo aquilo que tinham trazido. Esqueceram-se até da hora do almoço. Mas a sua companheira não tinha esquecido essa função e apresentou-lhe uma saborosa sopa na qual não identificou a maioria dos componentes mas que mesmo assim lhe soube esplendidamente. O resto da tarde passaram-na a conversar e a definir modos de actuação para os dias futuros.

A apresentação oficial decorreria logo na manhã do dia seguinte e uma das primeiras tarefas seria dividir convenientemente as turmas desde a Primeira à Quarta classe conforme os conhecimentos demonstrados e que já haviam sido aquilatados anteriormente pela sua ajudante o que muito lhe facilitava o trabalho.

Havia que distribuir o material escolar. Um quadro preto de material moderno e uma caixa de giz também havia sido acrescentado ao espólio da escola o que muito facilitaria as explicações.

A noite chegou e foi com alegria que inauguraram o seu novo candeeiro a gás que veio substituir o velho a petróleo ali existente, o que veio dar um ar de modernidade ao local. Fora dali só o posto médico com o seu gerador portátil dispunha de uma fonte de energia eléctrica. No entanto sabia que não deveria abusar do gasto dada a dificuldade em se conseguirem as botijas de gás. Nessa noite, a despeito do cansaço com todas as mudanças, dormiu pouco. Lembrava todos os conselhos e advertências, procedimentos e deveres. No quarto ao lado a cabeça da sua colega deveria passar pelos mesmo problemas dado ouvir os seus movimentos no colchão de que, embora ao de leve, se apercebia.

(Continua ...)
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